Quando a Torre Eiffel voltou a cantar: Céline Dion, a Química da esperança e a beleza de continuar
Há
momentos na história da humanidade em que a arte deixa de ser apenas
entretenimento para tornar-se um testemunho da capacidade humana de resistir.
Na noite de 26 de julho de 2024 [há quase dois anos!], da cerimônia de abertura
dos Jogos Olímpicos de Paris, o mundo inteiro pareceu prender a respiração
diante da imponência da Torre Eiffel. Enquanto milhares de pessoas acompanhavam
o espetáculo às margens do Rio Sena, uma figura surgia iluminada entre o aço do
maior símbolo francês, um monumento que foi criado apenas para uma exposição
científica de outrora. Vestida de georgette de seda branca, sob milhares
de cristais que refletiam as luzes da cidade, Céline Dion reaparecia diante do
planeta Terra, usava um imponente vestido de alta costura da requintada e
estimada grife Dior.
Não
era apenas uma cantora retornando aos palcos. Ali estava uma mulher enfrentando
uma das doenças neurológicas mais raras e incapacitantes conhecidas pela medicina.
Uma artista que soube transformar dor em beleza de uma maneira magistral. Naquele
momento, a Ciência encontrou a Arte! Quando sua voz ecoou interpretando L'Hymne
à l'amour, eternizada por Édith Piaf [carinhosamente apelidada de
Pardalzinho de Paris], não foram apenas notas musicais que preencheram o céu
parisiense. Cada palavra parecia carregar meses de tratamento, incontáveis
sessões de fisioterapia, lágrimas silenciosas e uma coragem que nenhuma
fotografia seria capaz de retratar na íntegra. Talvez, por isso, milhões de
pessoas tenham chorado diante das transmissões televisivas sem sequer
compreender exatamente o motivo.
Em
entrevistas, Céline frequentemente demonstrava um senso de humor espontâneo,
uma humildade incomum para alguém que ocupava o topo da indústria musical e um
carinho genuíno pelos fãs. Seja essa autenticidade que explique por que seu
retorno em Paris tenha emocionado tanto os espectadores. As pessoas não estavam
apenas assistindo a uma celebridade. Estavam reencontrando alguém cuja
vulnerabilidade sempre foi compartilhada sem máscaras!
E,
foi justamente essa vulnerabilidade que, em 2022, ganhou um nome científico:
Síndrome da Pessoa Rígida (Stiff Person Syndrome). Tudo aquilo que
sentimos, pensamos, respiramos, lembramos ou esquecemos depende de reações
químicas extremamente sofisticadas que acontecem continuamente em nosso
organismo. Nosso cérebro pode ser compreendido como uma imensa rede de
comunicação molecular. Bilhões de neurônios trocam informações através de
substâncias chamadas neurotransmissores. São moléculas capazes de converter
impulsos elétricos em mensagens químicas, permitindo que músculos se contraiam,
emoções sejam experimentadas e pensamentos sejam construídos. Entre esses
neurotransmissores existe um dos mais importantes: o ácido gama-aminobutírico,
conhecido pela sigla GABA.
Sob
a perspectiva da Química, o GABA é uma molécula relativamente simples. Entretanto,
pela perspectiva da vida, ele exerce uma função monumental: atua como o
principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central. Em termos
simples, é ele quem ajuda o cérebro a dizer "pare" quando os impulsos
nervosos se tornam excessivos. Assim como os freios são indispensáveis para
controlar um automóvel, o GABA é essencial para controlar os movimentos do
corpo humano.
Na
Síndrome da Pessoa Rígida (SPR), esse delicado equilíbrio químico é
profundamente afetado. O sistema imunológico, que deveria proteger o organismo
contra vírus e bactérias, passa a produzir anticorpos capazes de interferir em
enzimas relacionadas à produção do GABA. Como consequência, os sinais nervosos
tornam-se exageradamente intensos, favorecendo rigidez muscular, espasmos
dolorosos e dificuldades motoras que podem comprometer atividades simples do
cotidiano. Esse foi o desfecho da situação de Dion, um processo que continua
sob controle!
A
doença possui natureza autoimune. Do ponto de vista químico, trata-se de uma
impressionante falha nos mecanismos de reconhecimento molecular. Os anticorpos,
proteínas produzidas pelos linfócitos, possuem elevada especificidade. É como
se cada anticorpo fosse uma chave construída para abrir apenas uma fechadura
específica. Na SPR, entretanto, algumas dessas "chaves" passam a
reconhecer equivocadamente enzimas responsáveis pela síntese do GABA,
principalmente a enzima descarboxilase do ácido glutâmico (GAD). Aqui, vale uma
aula [densa] de Bioquímica!
Em
linhas gerais, poucas atividades humanas exigem tamanho refinamento bioquímico
quanto o ato de cantar. Para que uma única nota musical seja produzida,
centenas de músculos precisam trabalhar de forma absolutamente sincronizada. Quando
ouvimos Céline Dion interpretar The Power of Love, dificilmente pensamos
que cada nota emitida depende de gradientes eletroquímicos, potenciais de ação,
canais iônicos, ATP, cálcio intracelular e dezenas de neurotransmissores
diferentes. A música é, simultaneamente, arte e bioquímica, ou seja, é poesia
escrita com moléculas.
É
preciso destacar que, existe um conceito muito conhecido na Ciência dos
Materiais chamado resiliência. Originalmente, a palavra descreve a
capacidade de um material absorver energia durante uma deformação e retornar ao
seu estado inicial sem sofrer ruptura permanente. Com o passar do tempo, a
Psicologia apropriou-se desse termo para definir algo profundamente humano: a
habilidade de enfrentar adversidades sem perder a capacidade de continuar
vivendo. Ademais, nenhuma palavra descreva melhor a cantora em questão. Diante
do exposto, talvez seja injusto dizer que ela possui apenas uma das maiores
vozes da história; sua maior qualidade foi a capacidade de transmitir
humanidade e ser resiliente!
Há
uma frase atribuída ao físico norte-americano Richard Feynman (Pai da Nanotecnologia)
que sempre profiro: "Tudo é feito de átomos." Embora aparentemente
simples, ela carrega uma profundidade extraordinária. Afinal, somos
constituídos pelos mesmos elementos químicos que formam as estrelas, os
oceanos, as montanhas, as flores etc. No entanto, existe algo que a Química,
por mais extraordinária que seja, ainda não consegue explicar completamente. Como
uma combinação de carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio e tantos outros
elementos pode transformar-se em coragem? Como impulsos elétricos percorrendo
neurônios tornam-se esperança?
Como
professor de Química, aprendi que toda transformação exige energia. Nenhuma
reação ocorre espontaneamente sem que as condições adequadas sejam
estabelecidas. Algumas necessitam de calor. Outras dependem de pressão. Muitas
só acontecem na presença de catalisadores capazes de reduzir barreiras
energéticas. Curiosamente, a vida parece obedecer a princípios semelhantes. Também
precisamos de catalisadores.
Algumas
pessoas tornam-se esses catalisadores em nossa existência. Um professor que
acredita em um aluno quando ninguém mais acredita. Um pesquisador que dedica
décadas procurando respostas para doenças raras. Uma médica que insiste em um
tratamento mesmo diante das incertezas. Uma amiga que permanece ao nosso lado
durante os momentos difíceis. Uma artista que, sem saber, conforta milhões de
desconhecidos por meio de uma canção.
De
fato, Céline Dion tornou-se um desses catalisadores. Pois, sua voz atravessou
idiomas, culturas, religiões e gerações. Mais do que isso, mostrou que a arte
possui um extraordinário poder educativo. Ela nos ensina sem fórmulas, sem
provas e sem laboratórios. Ensina pela emoção. Ensina pelo exemplo. Ensina
porque desperta aquilo que existe de mais profundamente humano em cada um de
nós. Quiçá seja exatamente esse o ponto em que a Ciência e a Arte deixam de
caminhar em direções opostas. Ambas procuram compreender a condição humana. A
Ciência pergunta como. A Arte pergunta por quê.
Os
átomos constroem o universo.
As
moléculas sustentam a vida.
As
reações químicas explicam o funcionamento do corpo.
Mas
é a coragem — essa extraordinária propriedade humana para a qual ainda não
existe fórmula molecular — que transforma uma existência comum em algo
verdadeiramente inesquecível.
Enquanto
houver pessoas como Céline Dion, a Ciência continuará explicando como vivemos.
A Arte, porém, continuará nos lembrando por que vale a pena viver.

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