Tudo no mundo começou com um “sim”: a vida, a Química e Clarice Lispector
Clarice Lispector
(Chaya Pinkhasovna Lispector) nasceu na Ucrânia em 10 de dezembro de 1920. E,
morre no Rio de Janeiro em 9 de dezembro de 1977. No último dia 10 do corrente
mês, comemorou-se o centenário de nascimento. Devido perseguições aos judeus
durante a Guerra Civil Russa (1918 -1921), foge para o Brasil juntamente com
tua família. Põe os pés em solo americano em 1922 (Clarice com 2 anos!), sendo
recepcionados pela tia que morava na capital alagoana, Maceió. Frisa-se que
Clarice Lispector não tardou a escrever, assim que aprendeu a ler, na cidade do
Recife, onde passou parte da infância, ela já iniciara teus pequenos textos.
Aos 14 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, após o falecimento da tua mãe.
Nascida judia numa Ucrânia soviética,
mas de alma e criação brasileiras (Clarice dizia não ter nenhuma ligação com a
Ucrânia – “Naquela terra eu literalmente nunca pisei: fui carregada de colo” –
e que sua verdadeira pátria era o Brasil!), Lispector está entre os autores de
língua portuguesa com mais títulos traduzidos; é a única mulher num ranking só
de homens. Outrossim, é a mais estudada nacional e internacionalmente. Suas
obras são caracterizadas pela exacerbação da subjetividade. Livro a livro, o
teor de complexidade e/ou entendimento torna-se profundo, por ora, até de
difícil interpretação. Aliás, costumo dizer que o acervo de Clarice é uma
pintura imersa em forma de palavras, uma dança entre sons, ritmos e silêncios.
Aconselho a você bailar neste gingado!
Ainda por cima, foi uma das mais
importantes personagens da literatura modernista brasileira. Autora de
clássicos como A Hora da Estrela, Laços de Família e do livro de contos
Felicidade Clandestina, Lispector construiu uma obra ímpar em nossa história,
ressaltando um estilo intimista, com um olhar voltado para as questões
cotidianas e, principalmente, psicológicas do ser humano. Um adendo: ela
possuía um sotaque bem peculiar, o que faz muita gente pensar que era oriundo
da tua nacionalidade. Entretanto, Clarice possuía anquiloglossia,
mais conhecida como “língua presa”, isso acontece quando a pequena membrana que
fica abaixo da língua (conhecida popularmente como “freio”) é menor do que o
normal, impedindo o órgão de se movimentar livremente.
Outro fato que muitos desconhecem é que
em tuas obras há algumas nuances sobre ciências, sobre Química. Por exemplo, em
A Hora da Estrela, seu derradeiro trabalho, vejamos: “Tudo no mundo
começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida.
Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca
e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais
começou.[.] Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei
a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de
acontecer?”
Uma molécula disse sim a outra molécula…
quimicamente – o sim – acontece por ligações entre os átomos constituintes.
Molécula pode ser definida como um conjunto de átomos, iguais ou diferentes,
unidos por ligações covalentes. Essas espécies químicas são eletricamente
neutras e representam a unidade formadora de uma substância. No dia a dia,
várias moléculas dizem “sim” a outras moléculas, na verdade, desde que o mundo
é mundo, várias moléculas fizeram e fazem esse “matrimônio”.
Há uma infinidade de moléculas – simples e
compostas – como o gás oxigênio (O2(g)) presente no ar atmosférico e
indispensável para sobrevivência, é constituído por moléculas formadas por dois
átomos de oxigênio, caracterizado como uma molécula simples e diatômica
(formada por dois átomos do mesmo elemento químico, O – O). Entretanto, quando
estamos com sede e ao observarmos um copo com água não temos ideia que essa
substância é formada por várias moléculas de H2O(l). Essa fórmula indica que a
água é composta por 3 átomos: dois átomos de hidrogênio (H) e um de oxigênio
(O), que estão compartilhando elétrons entre si, formando uma molécula
composta. Outra molécula bastante conhecida e utilizada por todos nós: o açúcar.
A unidade formadora do açúcar é a sacarose. Essa molécula é bem mais complexa,
pois são 45 átomos ligados: 12 átomos de carbono, 22 átomos de hidrogênio e 11
átomos de oxigênio.
E por falar em água, há um livro
titulado Água Viva em que Clarice Lispector surge de forma mais crua,
convidando o leitor a entrar em sua vida e conhecer seus sentimentos mais
profundos. Infinitas reflexões sobre o tempo, a vida e a morte, os sonhos e
visões, as flores, os estados da alma, a coragem, o medo, a arte da criação, e
também, pitadas de ciências! Observe no trecho a seguir:
“Porque ninguém me prende mais.
Continuo com a capacidade de raciocínio – já estudei matemática que é loucura
do raciocínio – mas agora quero o plasma… Esses instantes que decorrem no
ar que respiro: em fogos de artifícios eles espocam mudos no espaço. Quero
possuir os átomos do tempo.”
O plasma é um dos quatro estados
físicos da matéria, similar ao gás, no qual certa porção das partículas é
ionizada, ou seja, um gás cujas moléculas tiveram seus elétrons arrancados
devido a um aumento em sua energia. Onde podemos perceber esse fenômeno? Em
lâmpadas de neon que contêm gás de neônio sob baixas pressões, o qual, quando
sujeito a correntes elétricas, torna-se ionizado e emitem luz visível. As
lâmpadas desse tipo são empregadas em fachadas luminosas, em faróis de
automóveis e também em decorações. Já o átomo é uma unidade básica de matéria
que consiste num núcleo central de carga elétrica positiva envolto por uma
nuvem de elétrons de carga negativa.
Seja com suas particularidades bem
íntimas/profundas, psicológicas (bem densas) ou das ciências, Clarice se
adaptou ao que era inadaptável, para vencer suas repulsas e teus sonhos, porém,
nunca desistiu de si mesma. Não cortara seus defeitos, até porque “nunca se
sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”. Suas obras possuem
múltiplas camadas de sentido. Cada leitor vê de um jeito. Cada época revisita o
autor e adequa às suas necessidades e à leitura de mundo feita naquele momento.
E isso é fantástico!
Além de tudo, nos ensinou a refletir:
“pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida
exige”. Não se culpe. Não se compare. Não se subestime. Para quem quer começar
a investigar a obra da autora, a sugestão é iniciar pelos contos (Laços de
Família). “Clarice é eterna como todos os grandes escritores. Sempre nos
desperta. Este é um momento que a gente deveria reler”. Não só ficar bitolado
em redes sociais, presos em stories e feeds feitos
com camadas e mais camadas de filtros, mostrando o que na verdade não condiz
com a realidade, é pura farsa, quiçá afirmação, “caminho” para ser aceito em
determinado subgrupo.
A literatura nos desafia, nos eleva a
um patamar de conhecimento. Quando a gente se pergunta, é porque estamos vivos.
A autora desafia a (re)viver, respirar, (re)pensar, (re)aproveitar cada
instante. Ou, em outras palavras possíveis, o encerramento de A Hora da Estrela
é um exemplo da lembrança para viver o dia, o tempo, a estação: “Não esquecer
que por enquanto é tempo de morangos. Sim”. Saibam colher. Saibam degustar
da melhor maneira possível!
Nota: publicada originalmente
em 15/12/2020.

Comentários
Postar um comentário