Quem samba e encanta na beira do mar é "Clareia"

 




Sábado. 2 de abril de 1983, era um sábado de aleluia. O Brasil acordara com a triste notícia da partida da primeira sambista, Clara Nunes, transcorridos 27 dias em coma profundo, em estado vegetativo. O laudo médico aponta – como causa mortis – choque anafilático, durante a cirurgia de varizes. A cidade do Rio de Janeiro, decreta luto oficial de 3 dias e, no dia do sepultamento, o comércio local fechou suas portas. Uma das inúmeras maneiras de dizer adeus, sem tirá-la do coração!

Nascida no interior de Minas Gerais, em tenra idade ficou órfã de pai e de mãe. Começou a cantar no coro da igreja católica. O caminho para o sucesso se concretizou quando ela se mudou para o Rio de Janeiro. Na cidade, olhou o mar pela primeira vez e ficou extasiada. Uma paixão que se transformou em inspiração para diversas canções ao longo da carreira. A mudança para o Rio também colocou Clara em contato com o mundo do samba. Os ritmos africanos fascinaram a mineira, que deixou o bolero de lado e passou a cantar samba. Passando a ser a primeira sambista, a primeira mulher brasileira a vender mais de 100 mil cópias de LP (long play).

Sob influência dos acordes africanos, a artista teve mudanças significativas na vida religiosa. De família e educação kardecistas, ela passou a frequentar o candomblé quando chegou à terra carioca, porém, converteu-se à umbanda. Guiada pelo amor e intuição, foi levando para os palcos músicas que exaltavam deuses das religiões africanas e as tradições quilombolas.

Ao longo da carreira, a Guerreira conquistou inúmeros prêmios (inter)nacionais, mulher frente ao teu tempo, empoderada e certa do que queria: cantar e disseminar a igualdade! Lutou contra intolerância religiosa, divulgou a cultura afro-brasileira e toda a ancestralidade que aqui antes pisou, mergulhou em um universo vasto e pacífico, além do instrumento vocal, ela utilizou seu corpo, suas vestimentas para expressar o carinho e respeito pelo espiritual: amor, devoção e fé. Em linhas gerais, rompeu barreiras e usou a música para lutar contra todo e qualquer preconceito religioso, ela falou de liberdade e lutou contra o racismo religioso em uma época em que o tema quase não era debatido em nossa sociedade.

A afirmação da identidade religiosa trouxe para o cenário musical uma Clara mais brilhante e feliz, a química perfeita deu-se quando ela interligou a religião e o samba [e o carnaval!]. E por mencionar “a química”, há algumas curiosidades sobre a “a Sabiá Mineira” que aquela ciência pode nos explicar, a saber: – permanente no cabelo, Clara tinha cabelos lisos, contudo, decidiu aderir a cabelos volumosos (influência da cultura/religião afro), para tal feito, o cabelo passa por uma reação química, o composto tioglicolato de amônio (TGA) em contato com o fio do cabelo interage com átomos de enxofre que constituem o aminoácido capilar, decorrido o tempo, a queratina sofre um entumecimento (inchaço), tornando-se maleável para ser enrolada, conferido ao cabelo, cachos e volumes bem expressivos (claro que aqui está uma breve explicação de um processo que requer tempo e cuidado!); – halotano, anestésico inalatório que ceifou à vida da Clara Nunes, utilizado para a indução e manutenção da anestesia geral, um dos seus benefícios está no controlo do aumento de produção de saliva, podendo ser particularmente útil para doentes difíceis de ventilar ou intubar. Porém, nenhum fármaco é livre de efeitos adversos e devemos levar sempre em consideração o paciente que irá receber o medicamento. É de suma importância realizar a medicação pré-anestésica para facilitar a indução e ajudar a amenizar os efeitos indesejáveis dos fármacos. Desde 2012, o fármaco não se encontra mais disponível em alguns países.

Estes dois temas podem ser pontos de partida para trabalhar (em aula) e/ou entender sobre química orgânica, especialmente a composição de materiais e suas reações químicas. Ademais, é um modo de aplicar a Lei no 10.639/03 em um contexto de ciências da natureza. Essa legislação obriga o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas, sendo mais relacionada às áreas de humanas. O fato é que a química está presente em nosso cotidiano sob as mais variadas formas/situações. Ela está presente nos medicamentos, nos processamentos e conservação de alimentos, no preparo de uma refeição, nos fertilizantes agrícolas, nos cosméticos capilares, nas artes etc.

Clara Nunes foi uma das principais cantoras brasileiras, dona de uma voz potente e cheia de recursos. Firmou identidade, fomentou o samba, deu asas ao carnaval. Portelense de coração, foi homenageada dando nome a rua onde fica a quadra da escola em Madureira. E, 42 anos depois da sua morte, as músicas continuam atuais e servem de inspiração para artistas que fazem releituras do seu trabalho. 

“Tenha sonhos coloridos”, foi a última frase que Clara Nunes escutou pelo anestesiologista. Acredito que, ela continua a sonhar nos campos mais vastos e floridos! Os que não conhecem o vasto, rico e belíssimo repertório gravado pela cantora, existem alguns documentários e álbuns em plataforma de streaming. É só “viajar” na beleza dos seus versos pra saber por que o canto e a alegria deste “sabiá” fazem tanta falta e continuam ecoando em nossos ouvidos.

Pois, desde que ela pisou na areia, o mar serenou…

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