Em força, em poesia, em Química, em Caetano: a Vida que vem da Luz do Sol
A estrela entre as estrelas, músico, arranjador, produtor, escritor, baiano de Santo Amaro da Purificação, irmão da ilustre Maria Bethânia, filho de D. Canô e Sr. José, completara 80 anos [de poesia] no dia sete do corrente mês. Considerado internacionalmente como um dos maiores compositores do século XX, Caetano Veloso, tem mais de 50 álbuns gravados e canções em trilhas sonoras de filmes como Hable con Ella, de Pedro Almodóvar e Frida, de Julie Taymor. E, com toda convicção, músicas que embalaram algum momento significante em nossas vidas (eu que o diga! “… Sou o cheiro dos livros desesperados/Sou Gitá Gogoia/Sou olho me olha mas não me pode alcançar…”).
A importância cultural de Caetano para o Brasil vai além das composições, ele é um ativista em prol [da sobrevivência e da justiça] do nosso país. Por teu zelo e trabalho, recebera uma insígnia da Ordem do Mérito Cultural (OMC), uma ordem honorífica às pessoas que se distinguem pelas respectivas contribuições prestadas à cultura. Friso que, os condecorados são avaliados por uma comissão técnica do Ministério da Cultura. Sabemos que o filho de D. Canô é autor de lindas cantigas com força poética que nos emociona e faze-nos aprender [e, compreender] sobre diversos assuntos, dentre os quais, a Química.
É isso mesmo que tu leste! Q u í m i c a. O que quero destacar (além do Caetano, é óbvio!) é que o mundo da Ciência não fica restrito somente aos laboratórios. Há informações deste universo curioso em todos os segmentos, em todas as artes. A título de exemplo, na música Luz do Sol, Caetano apresenta um dos processos mais importantes para a sobrevivência da Terra: a fotossíntese. Trata-se de uma reação físico-química – a nível celular – realizado por seres vivos clorofilados (aqueles que apresentam um pigmento essencial, a clorofila), que utilizam o dióxido de carbono (gás carbônico) e água, para obter carboidratos.
Apontando que a clorofila é o pigmento mais importante no processo fotossintético das plantas, através das suas moléculas que captam a radiação luminosa dos raios solares e a transforma em energia química. A absorção da energia luminosa e sua transformação em energia permitem o crescimento das plantas, seu florescimento e a produção de frutos, iniciando-se uma cadeia alimentar… Essa breve explicação é para denotar que existem inúmeras reações químicas que não nos são visíveis a olho nu, porém, importantes para manutenção da vida. De forma bem simples (no português!), vou apresentá-los a reação química que ocorre na fotossíntese: gás carbônico + água + luz solar = glicose + oxigênio.
Na representação reacional supracitada, a clorofila atua como um catalisador (agente que acelera/ativa a reação), e assim, “a química” acontece. A glicose é um carboidrato que apresenta como função primordial fornecer energia. Nos seres humanos, ela pode ser obtida por meio da nossa alimentação, e os níveis que ela apresenta em nosso sangue são chamados de glicemia. Essa concentração de glicose no sangue é regulada pela insulina e pelo glucagon, dois importantes hormônios produzidos no pâncreas. A insulina é o hormônio responsável por garantir que a glicose presente no sangue entre nas células, promovendo, desse modo, a redução de glicose no sangue. O glucagon apresenta, no entanto, uma ação contrária, e faz com que a reserva de glicose seja quebrada (glicogênio) e os seus níveis no sangue aumentem.
O que Caetano quis dizer em seus versos Luz do Sol, “que a folha traga e traduz em verde novo em folha em graça em vida em força em luz”, é falar sobre a fotossíntese, onde a luz do sol é utilizada para a produção de energia e, consequentemente, a continuidade aqui na Terra. E, diga-se de passagem, que há tantos vocábulos e conceitos imbuídos na canção. Poeticamente, ela é rica, vasta e inebriante. Didaticamente, pode-se ser trabalhada de modo contextualizado nas áreas de Química, Física, Biologia, Língua Portuguesa (há tantos campos lexicais e organização semântica, que “dariam panos para as mangas”!).
Da perseguição e prisão pela ditadura militar a voz ativa e contundente, o magnânimo artista nos permite refletir, nos faz (re)pensar, [en]cantar, embalar no deleite de tuas músicas. Do Tropicalismo ao show comemorativo aos 80 anos bem vividos, Caetano é êxtase, é vigor, é político, é professor: ensina e compartilha. É ciência poética, seja em solo, seja em quarteto. Sim, em quarteto! Lembra quando mencionei no terceiro parágrafo que a Ciência está em todos os lugares? Com o octogenário, foi possível trazer à baila o viés da Química mais uma vez e, assim, concluir uma série que escrevi sobre os demais Doces
Bárbaros (Maria Bethânia, Gilberto Gil e Gal Costa, por ordem de escrita neste portal), tornando-a tal ciência mais “palpável”, acessível e descomplicada. Das inúmeras reações químicas no meio celular à composição química do óleo de dendê, a Química encontra-se no axé e no trio elétrico desde a sua criação, está no samba e no bloco do Cordão do Bola Preta, mas isso eu deixo para contar em outro carnaval.
Ao baiano que admiro, nossas reverências e aplausos calorosos. Viva Caetano! Nosso patrimônio poético!
Nota: publicada originalmente em 15/08/2022.

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