Das interações químicas para as ruas: a Química por trás do carnaval



         
É preciso saber que o carnaval não é uma festividade genuinamente brasileira, apesar de sermos o país que mais o celebra e da melhor forma, frisa-se! Ele tem suas raízes em tradições antigas e evoluiu ao longo dos séculos, incorporando elementos de diversas culturas. As origens do carnaval podem ser rastreadas nos festivais pagãos da antiguidade, como as celebrações em honra a Dionísio na Grécia e a Saturnália, em Roma. Essas festividades eram marcadas por excessos, festas, danças e a inversão de normas, onde as classes sociais se misturavam. Outra origem retoma a influência cristã; com a ascensão do cristianismo, a folia momesca passou a ser associada ao período que antecede a quaresma, um tempo de jejum e penitência.
         O termo “carnaval” é derivado do latim “carne vale”, que significa “adeus à carne”, referindo-se à prática de se abster de carne durante a quaresma. Assim, o carnaval se tornou uma última oportunidade para festas e excessos antes desse período de restrição. Era uma maneira, digamos, “inteligente”, que a Igreja Católica tinha de controlar “seu povo” e, assim, ter maior dominação e exercer, ainda mais, suas influências social, política, econômica e religiosa. 
         Durante a Idade Média e o Renascimento, o carnaval se consolidou como uma festa bastante popular na Europa, tendo incluindo elementos de teatro, sátira e crítica social, permitindo que as pessoas expressassem suas opiniões sobre a sociedade de forma lúdica e sem medo de represálias. A chegada dos europeus ao continente americano trouxe inúmeras ingerências, o carnaval foi trazido para o Brasil pelos colonizadores portugueses no século 17. Inicialmente, as celebrações seguiam rituais ipsis litteris europeus, mas rapidamente começaram a se misturar com as culturas indígenas e africanas. Os africanos escravizados aqui usavam o carnaval pra expressar suas religiões e suas histórias. Foi nesse espírito que surgiram as grandes escolas de samba, o axé, o frevo e os blocos de rua.

O carnaval que temos hoje é o que é devido a nossa ancestralidade, e que, ainda, é massacrada, marginalizada e sofre preconceito seja pela cor, pela condição social ou pela alteração da letra de música por uma cantora branca, cristã [leia-se, evangélica!] que bebe de toda aquela ancestralidade, mas demoniza o ritmo que enche teus bolsos, abomina aqueles termos religiosos que não são teus! A hipocrisia não está somente nela, mas, também, em que a fomenta. (Re)pense: é um preconceito explícito atrelado a uma alucinação quiçá dantesca. Isso em pleno século XXI! 

A festa se tornou uma expressão cultural rica e diversificada, refletindo a identidade brasileira, seja através das escolas de sambas, nos blocos de frevos e axé. É uma patuscada vibrante e cheia de cores, e a química desempenha um papel importante em vários aspectos dessa celebração, a saber:

• Tintas e pigmentos: as fantasias e adereços do carnaval são frequentemente coloridos com tintas e pigmentos. Esses produtos químicos são formulados para serem vibrantes e duradouros. A química dos corantes envolve a interação de moléculas que absorvem e refletem a luz, criando as cores que vemos;

 • Glitter e “brilhos”: o uso de glitter e outros materiais brilhantes (paetês, lantejoulas etc.) é comum nas fantasias. Esses produtos são feitos de polímeros (que são macromoléculas) que refletem a luz, e sua produção envolve reações químicas que garantem a durabilidade e a segurança dos materiais;

 • Maquiagem: a maquiagem utilizada durante o carnaval também é um exemplo de química em ação. Os cosméticos contêm uma variedade de compostos químicos que proporcionam cor, textura e durabilidade. A química ajuda a garantir que esses produtos sejam seguros para a pele e resistentes ao calor e à umidade;

 • Efeitos especiais: em algumas apresentações, são utilizados efeitos especiais, como fumaça ou névoa. Esses efeitos são frequentemente criados por reações químicas específicas que produzem vapor ou partículas que podem ser dispersas no ar;

 • Consumo de oxigênio e o acúmulo de lactato sanguíneo: uma pesquisa realizada pela UFPE (2018) avaliou o consumo de oxigênio e o acúmulo de lactato (subproduto do metabolismo da glicose e dos aminoácidos) sanguíneo durante a dança do frevo. O estudo concluiu que o frevo é uma atividade física intensa, com gasto calórico semelhante ao de atletas de velocidade;

 • Frevo e ciência numa troça pernambucana: criado em 2005 o “Com ciência na cabeça e o frevo no pé” divulga a ciência brasileira no compasso do frevo! Ele nasceu a partir de uma parceria entre diversas instituições brasileiras, como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o Espaço Ciência, museu de ciências localizado em Pernambuco, as Prefeituras de Recife e de Olinda. Muitos cientistas já foram homenageados e viraram bonecos gigantes: o cientista italiano Galileu Galilei, a física polonesa Marie Curie, o geógrafo brasileiro Milton Santos, o biólogo inglês Charles Darwin, entre outros.

 De fato, o entredo é uma celebração que vai além de suas origens religiosas e pagãs. É um momento de festa, criatividade e expressão cultural, onde as pessoas se reúnem para celebrar a vida, a diversidade e a alegria. Cada região do Brasil e do mundo tem suas próprias tradições e formas de celebrar, tornando o carnaval uma festividade única e multifacetada. Porém, em nosso país, a sua essência consiste e é: o samba, o frevo, o maracatu, o axé, o trio elétrico, o caboclinhos, o coco-de-roda, a ciranda, o afoxé e as marchinhas.  Normalizar outros ritmos é descaracterizar o período momesco, é imbuir a ação “marketeira” na vendagem de acesso a redutos mais selecionados [camarotes] com bandas e estilos não condizentes com a realidade. Carnaval não é festival!

Há quem muito demoniza o período, mas bebe de todo lucro que aquele fornece.

Há quem muito demoniza de toda a ancestralidade, mas é dela que tem o sustento para morar com a família fora do país.
           
Há quem diz que o carnaval é puro pecado quando realmente precisa estudar a história e entender que o pecado reside na própria mente [e que foi imposto num tempo de outrora por um “sistema” de interesses político-religioso-econômico] e em suas ações para com o próximo. É preciso entender que, quem trai, quem é maldoso, quem é perverso, seja lá o que for, não precisa de carnaval para exercer o “livre arbítrio”! A pessoa é o que é! É questão de índole, de princípios. O carnaval nos ensina a valorizar a cultura, a tradição e a convivência harmoniosa, além de nos lembrar da necessidade de momentos de descontração e felicidade em meio à rotina tão exausta do cotidiano. É uma oportunidade de celebrar a liberdade e a expressão individual, com respeito, com amor, sem excessos, promovendo um sentimento de comunidade e pertencimento. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Por entre flores e estrelas: 80 anos da Estratosférica

A Química da Saudade: como a música Inesquecível, de Sandy & Júnior, marcou uma geração

O segredo dos zumbis de Michael Jackson: Como o Halloween ensina Química e engole o nosso folclore