A Química no impulso de cada passo durante a corrida: a sensação de euforia

 



Correr envolve mais que algumas passadas. Requer disciplina, força de vontade e superação. Comecei a correr – não, por acaso – mas como “artifício”, como mais uma válvula de escape, pois estava no último ano do meu doutoramento: à espera de um artigo ser aceito e, subsequentemente, a defesa da tese; que levou quatro anos para ficar pronta. Quanta tortura, angústia e ansiedade, faltava-me o ar. A sensação era de estar num “corredor polonês” e chorava com os castigos ali deferidos! A vontade extrema de jogar tudo pra cima e dizer: tchau, chega! Vou-me embora para Pasárgada! (à la Manuel de Barros). No poema do escritor modernista brasileiro, aquele lugar denotava fuga, liberdade. Eu estava querendo a minha [leia-se, alforria], queria ser livre daquelas amarras, destarte, comecei a correr.

Os primeiros quilômetros pareciam inatingíveis (estou falando dos 3 Km! O bastante para um calouro!). Dores em toda parte do corpo, exaurido. Cumpri o objetivo e estava convincente de abortar a atividade, essa não era para mim. Porém, algo de novo aconteceu comigo pós-corrida. A sensação era indescritível.

Meu corpo estava relaxado, um estado de frenesi precedido à calmaria. O que aconteceu? Explicar-te-ei. Continue lendo e descubra porque esta prática esportiva é uma excelente alternativa para se manter saudável. 

Os benefícios da corrida são inúmeros. A saber, é uma modalidade completa que tem impacto significativo no corpo e na mente. A euforia [que também é chamada de “runner´s high”] que nos arrebata feito furacão quando passa, é causada devido ao tríplice conjunto; metabolismo x reações químicas x sistema musculoesquelético, que funciona em perfeita harmonia e/ou sincronia. As sensações de euforia e, – diga-se, de passagem – da exaltação depois que corremos são decorrentes da dopamina. 

A dopamina é um neurotransmissor central, precursor metabólico da noradrenalina e da adrenalina, que atua em receptores específicos, presentes no sistema nervoso central, nos vasos mesentéricos, renais e nas coronárias. Esse neurotransmissor está relacionado com diferentes funções, nas quais consta a regulação do controle motor e de algumas emoções: humor, atenção, prazer e, também, da cognição e de algumas funções endócrinas. Vale destacar que, além da produção no corpo humano, a dopamina é industrialmente produzida em ampolas de 5 mg mL-1para fins de tratamentos diversos tais como de choque e da hipotensão grave após infarto agudo do miocárdio, dilatando os vãos sanguíneos e aumentando dessa forma o fluxo de sangue. 

Ademais, um estudo da NYU Grossman School of Medicine (USA) (2021) revelou que os treinos elevam substancialmente a produção da dopamina em nosso organismo. Já um outro estudo, do Journal of American College of Cardiology (2014), concluiu que se uma pessoa correr entre 5 e 10 minutos por dia, mesmo que em uma baixa intensidade, ela consegue prolongar sua vida em alguns anos, se comparado com uma pessoa que não corre nada. Um estudo bem peculiar publicado no Brazilian Applied Science Review (2021), traz à baila a contribuição da dopamina para nosso corpo, não como a criação de prazer. Em vez disso, auxilia a reforçar sensações e comportamentos agradáveis, ligando coisas que o fazem sentir-se bem com o desejo de as voltar a fazer. E, esta ligação é um fator importante para o desenvolvimento do “vício”. 

Em conversa com o amigo, bacharel e licenciado em Educação Física, especialista em Fisiologia do Exercício, consultor esportivo e empresário Hellder Prado (CREF 0949-0 G/SE), do H7 Clube de Corrida (@h7clubedecorrida), afirmou que “para ter êxito nos treinos (e em outras atividades) precisa ter regularidade”, a constância é a base do corredor. Parafraseando o nosso treinador (o que já se tornou um jargão!): “Vamo que vamo! Cuida!” é que conseguimos conquistar e evoluir na cadência, assim como, fazer novos amigos, pois correr não é solitário. O H7 é muito mais que um clube, é uma família! 

Ah! Friso que, o boom da corrida não foi durante o período pandêmico e, sim, na década de 70, quando o médico norte-americano Kenneth Cooper disseminou o “Teste de Cooper”. Nesse viés, ressalto que a origem da corrida remonta à pré-história, quando os homens precisavam ser ágeis para caçar ou fugir dos predadores. E, a “maratona”, que conhecemos tão bem nos dias atuais, surgiu no ano 490 a.C., quando um soldado correu (exatos 42 Km) até Atenas para comunicar que os gregos venceram os persas na Batalha de Maratona (uma planície situada a leste de Atenas).  Genial, hein?! Sempre digo que há teor histórico em tudo que fazemos, há referências e porquês. Falar em corrida não é somente “correr pra postar” (cuidado com os perfis sociais que você segue, hein! Lembre-se de correr para sentir-se bem!) nem tão quanto pensar somente nas roupas dry fit que tanto utilizamos e nos permitem conforto. É muito mais! 

Tais roupas foram criadas com o único propósito de dissipar e “evaporar” o suor produzido pelo corpo, mantendo-o seco e com a temperatura adequada (leia-se, regulada). Por ano, bilhões de dólares são investidos em tecnologias que aprimoram as funções destes tecidos inteligentes. A priori, são confeccionados por microfibras, fios sintéticos constituídos por poliéster, poliamida e elastano [Química Orgânica puraaaaaa!], alguns tecidos vêm sendo incorporados por nanopartículas metálicas, principalmente, as de prata (AgNP) que possuem ação antibacteriana e antimicrobiana. Não obstante, esse tecido já faz parte do nosso cotidiano, o mundo da moda já o adotou e é apresentado com suas respectivas inovações nas passarelas durante as semanas de moda, que acontecem anualmente no eixo Paris-Milão, em seguida, alcança todos os continentes.

Percebeu que correr vai além de dar alguns passos? Tem história, tem Química (e muita! Por ora, atenuei a sua presença, a sua importância), tem (nano)tecnologia, tem saúde, tem amigos, tem superação e por aí vai… São tantas reações que a corrida nos proporciona e nos permite fazer diversas associações que, inclusive, há diversos livros a respeito. Mas o meu intuito aqui é dizer o seguinte: corra! Corra quando estiver triste, feliz, ansioso, calmo, nervoso, preocupado… corra! Se puder, procure um bom profissional, assim como o Prof. Hellder, para que tu possas ter orientações mais adequadas e ter treinos exclusivos de acordo com sua condição física. Hoje, eu não preciso mais ir embora para Pasárgada, pois faço da corrida a minha liberdade, atividade a qual eu posso fazer tudo aquilo que quero na vida: ser feliz. 

Seja feliz você também! Vamos correr? 

Nota: publicada originalmente em 30/08/2022.

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